MISAEL GOMIDE DOS SANTOS

     “Em nossa vida temos muitas lutas, e nessas lutas sempre temos que confiar e amar o próximo para sairmos dela”. Essa era a frase que meu antigo dono citava para os seus filhos. Eu o amava, meu dono, desde quando me conheço como gente, ou gato. Eu o amava tanto que nunca saía de perto dele.     
     Nós vivíamos em uma família feliz, sem brigas nem discórdias entre os integrantes daquela família. Mas, um dia, veio uma forte crise sobre o campo e toda a plantação sumiu, eu não sabia como, mas sumiu. E de repente aquela família unida tornou-se separada, e como lixo fui abandonado na estrada, longe da fazenda, longe de tudo.
A partir daí fiquei a mercê do mundo, andei quilômetros até à noite achar um lindo lugar cheio de luzes e pessoas, porém quando me aproximei vi que não era nada assim. Chegando naquele asqueroso local me deparei com gigante árvores de pedra, e assustadores rios cercados de pedra. Um lugar horripilante. Até que um dia encontrei um local onde todos estavam felizes e festejando, e me adentrei a este recinto. Chegando lá subi em um enorme objeto de madeira (que parecia estar cheio de algum líquido) e fiquei observando um homem, que parecia muito meu antigo dono e ele igualmente me notou e me levou para a sua casa. Eu comecei a gostar muito dele, mesmo ele tendo me abandonado, trocado de casa, de esposa e não ter mais filhos. Eu dava-lhe muito amor, porém ele não retribuía, parecia sempre estar de mau-humor ou não gostar de mim. Até que um dia ele decidiu descer uma escada e eu o acompanhei até o fundo daquele cômodo e quando estava passando para o outro lado da escada, o meu dono tropeçou, em mim, e caiu de boca no chão, e quando levantou, uma fúria demoníaca tomou conta dele, ele imediatamente pegou um machado e tentou inferir um golpe sobre meu pescoço, porém nenhum dano me causou, pois minha dona segurou o cabo do machado, mas em reflexo a isso meu carrasco, meu demônio, minha besta que eu chamava de dono inferiu um poderoso golpe na cabeça da minha dona, que logo morreu. 
      Assustado, saí correndo e fora da casa me enfiei, por meio de um buraco, na parede. Meu dono cheio de ódio abriu a parede e quase me achou, eu pensava que era o meu fim, mas, na verdade, ele estava escondendo o corpo de minha dona. Quando a ação diabólica estava completa, eu subi no pobre corpo da mulher repousando sobre a sua cabeça. Fiquei dias lá em quase completa escuridão, saindo apenas para beber água à noite em uma pequena fonte no quintal do vizinho. Até que um dia fui acordado em uma manhã por barulhos na parede, e com minhas últimas forças eu gemi o mais forte possível e logo após isso homens fardados retiraram eu e a pobre mulher.
      E agora estou eu aqui, sem dono, sem dona e sem lar, apenas aqui nesse bar, esperando meu amado dono chegar.

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